Coaching e liderança
A pergunta que faz o trabalho que o conselho não faz
Dar conselho é o instinto mais comum e o mais inútil num processo de coaching. A ferramenta de verdade é a pergunta certa, feita na hora certa.
O instinto mais forte de quem começa a atender é dar conselho. Alguém descreve um problema, a solução parece óbvia, e a vontade de dizer "faz assim" é quase impossível de segurar. É também o jeito mais rápido de tirar a pessoa do próprio processo.
Por que o conselho, mesmo bom, atrapalha
Um conselho resolve o problema de hoje e não ensina nada sobre o próximo. Pior: coloca a responsabilidade da solução em quem aconselhou, não em quem precisa agir. Se der certo, o crédito é de quem sugeriu. Se der errado, a pessoa não aprende por que errou, só que a sugestão falhou. A pergunta faz o oposto: devolve a responsabilidade, e junto com ela o aprendizado.
O que torna uma pergunta poderosa
- Aberta, não fechada. "Você já pensou em pedir ajuda?" aceita sim ou não, e a conversa para ali. "O que te impede de pedir ajuda?" exige uma resposta que revela alguma coisa.
- Pressupõe capacidade. "Por que você não consegue decidir?" carrega a suposição de um defeito. "O que você precisa saber para decidir?" pressupõe que a decisão está ao alcance.
- Aponta para ação, não para justificativa. Perguntas que começam com "o quê" e "como" levam a um passo. As que começam com "por quê" levam a uma explicação, e explicação sozinha não move nada.
- Cabe numa frase. Pergunta longa, com contexto embutido, já entrega a resposta que quem pergunta queria ouvir. Isso é sugestão disfarçada de pergunta.
Por que "por quê" trava mais do que ajuda
Perguntar "por que você fez isso" quase sempre produz defesa, porque a mente ouve acusação onde só havia curiosidade. A pessoa para de pensar no problema e passa a justificar a própria conduta. O mesmo conteúdo, perguntado como "o que estava em jogo quando você decidiu isso", pede a mesma informação sem pedir defesa nenhuma. É o mesmo mecanismo do metamodelo: a forma da pergunta decide se a informação que falta vem à tona ou se esconde ainda mais.
O silêncio depois da pergunta
Uma pergunta boa, seguida de silêncio, incomoda. O impulso de quem pergunta é preencher esse vazio com outra pergunta, uma explicação, um exemplo, qualquer coisa que alivie o desconforto de esperar. É exatamente esse desconforto que produz a resposta que vale a pena. Quem interrompe o próprio silêncio está protegendo a si mesmo, não ajudando quem responde.
Perguntar demais é o erro oposto
Uma pergunta atrás da outra, sem dar tempo de a primeira resposta assentar, vira interrogatório. Cada pergunta nova, feita cedo demais, comunica que a resposta anterior não bastou, e a pessoa se fecha. A pergunta certa depende de ter ouvido de verdade a resposta anterior, não de ter uma lista pronta na cabeça para disparar.
A manhã que ele já tinha esquecido como era
Um cliente estava decidindo se saía ou não do emprego. Já tinha contado a mesma história três vezes, com os mesmos argumentos, do mesmo jeito. Perguntei por que ele não pedia demissão, e ele respondeu na lata, num tom quase mecânico: porque tinha contas, porque o mercado estava ruim, porque a idade, porque a família. Cada resposta vinha pronta. Ele não estava pensando, estava defendendo. Depois de três perguntas assim, os dois já estávamos cansados, e a conversa tinha morrido num ringue que ele conhecia de cor.
Parei e troquei a pergunta: "o que você faria amanhã, na hora de acordar, se já tivesse pedido a demissão?" Ele ficou parado um tempo, a primeira pausa real da sessão. Aí disse, devagar, que ia fazer café com calma. Que ia levar os filhos na escola. Que ia sentar na varanda sem olhar o celular. Disse que fazia tempo que não lembrava como era uma manhã sem aquele peso. Não tinha nada de grandioso na resposta, mas ela abriu a porta que o "por quê" tinha fechado. Ele começou a falar do que queria, não do que temia.
Trabalhamos o resto da sessão em cima disso. Não era caso de pedir demissão na segunda seguinte. Ele saiu com uma tarefa simples: escolher uma manhã da semana para fazer exatamente aquilo, mesmo trabalhando. Dois meses depois pediu demissão, mas já com um plano, e o plano tinha nascido dessa conversa.
Quando a pergunta certa também é: isso é caso de coaching?
Nem toda pergunta poderosa serve para todo momento. Diante de alguém em sofrimento clínico, a pergunta certa não é sobre meta nenhuma, e insistir nela é usar a ferramenta certa no lugar errado, do jeito que este outro texto já detalha.
Formular a pergunta certa, no tempo certo, é treino, não talento. É conteúdo próprio na formação, com prática em par a cada módulo. A lista de espera do Master Coach traz mais sobre como o curso trabalha isso.
Quem só sabe dar conselho tem uma ferramenta. Quem sabe perguntar tem um método.