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Coaching e liderança

Coaching ou terapia: como saber de qual você precisa

Coach não trata sofrimento psíquico, e psicólogo não é consultor de carreira. O que separa os dois é o que cada um trata, a formação exigida e a lei.

Bruno SenaFundador do IBSDH

A pergunta quase nunca chega arrumada assim. Chega como "estou travado no trabalho, não sei se isso é caso de terapia". Ou como "faço análise há dois anos e sinto que não saio do lugar, será que um coach resolve?". As duas têm resposta, e ela não depende de qual profissional pareceu mais simpático.

Coaching e psicoterapia não se separam por estilo, preço ou duração. Elas tratam coisas diferentes, exigem formações diferentes e respondem a regras diferentes.

O que cada um trata

A psicoterapia trata sofrimento psíquico. Depressão, transtornos de ansiedade, trauma, luto que não passa, compulsões, ideação suicida. Trabalha com história, com o que está inconsciente e com o que se repete. Quem exerce é psicólogo ou médico psiquiatra. No Brasil isso é profissão regulamentada: exige formação universitária, tem conselho e tem código de ética que dá para acionar.

O coaching trabalha desempenho e direção em alguém que está funcionando. Parte de onde a pessoa está e de onde ela quer chegar, e cuida do caminho entre os dois. Clareza sobre o que se quer, decisão, hábito, comunicação, prioridade, liderança. No Brasil não é profissão regulamentada. Não há conselho, não há registro obrigatório, não há currículo mínimo. Quem escolhe um coach está escolhendo uma pessoa e uma formação, não uma credencial que alguém fiscaliza.

A pergunta que resolve a maior parte dos casos

Uma pergunta separa bem os dois campos: o que está no seu caminho é uma escolha ou é um sintoma?

  • Você sabe o que precisa fazer, tem condição de fazer, e não faz por hesitação, prioridade confusa ou medo comum de errar. Território de coaching.
  • Você não consegue levantar da cama, não sente prazer em nada há semanas, tem crises que travam o corpo, revive uma cena que não passa, ou pensa em desaparecer. Território clínico, e não é caso de meta.

A distinção tem pouco a ver com gravidade. Tem a ver com a natureza do que está acontecendo. Alguém em sofrimento intenso pode ter uma meta de carreira perfeitamente formulada, e ainda assim o que precisa ser cuidado primeiro é o sofrimento, porque nenhum plano de ação sobrevive a um quadro clínico não tratado. O contrário também vale. Nem toda paralisia é sintoma, e transformar uma indecisão comum em diagnóstico é o outro jeito de errar.

Os sinais de que aquilo ali não é para o coach

Um coach bem formado reconhece esses sinais, e reconhecer não exige diagnóstico. Exige honestidade sobre o que se está vendo.

  • Menção a morte, automutilação ou desejo de desaparecer. Aqui não existe nuance. Interrompe e encaminha na hora.
  • Sintomas físicos persistentes que ninguém investigou com médico.
  • Álcool ou outra substância usada como forma de aguentar o dia.
  • Uma cena do passado que volta sozinha, com o corpo reagindo como se estivesse acontecendo de novo.
  • A mesma questão voltando sessão após sessão, sem que nada do combinado tenha sido possível executar.
  • Alguém em tratamento psiquiátrico querendo usar o coaching para substituir a medicação ou o acompanhamento.

Encaminhar dá trabalho, custa um cliente e parece derrota. De derrota não tem nada. É o momento em que o julgamento profissional aparece inteiro, porque exige saber o que a própria ferramenta não faz.

E quando os dois cabem ao mesmo tempo

Cabe, e é mais comum do que parece. Alguém em terapia há tempo, estável, querendo estruturar uma transição de carreira, pode fazer as duas coisas em paralelo sem conflito nenhum. A regra que mantém isso saudável é simples e deveria ser dita em voz alta na primeira sessão: o coach não opina sobre o tratamento e não pede que a pessoa escolha entre um e outro. Quando há dúvida sobre o que pertence a cada espaço, quem decide é quem cuida do quadro clínico.

Um profissional que só sabe o que a ferramenta dele faz é metade de um profissional. A outra metade é saber onde ela para.

Uma vez em que eu disse que não era o lugar

Ela queria coaching de produtividade. Chegou com aquele discurso de quem já leu muito sobre o assunto: precisava de metas claras, de plano de ação, de alguém que cobrasse. Contou que um amigo tinha feito coaching e virado outra pessoa. Deixei ela falar. No meio da conversa apareceu uma coisa que não fechava com o resto. Ela disse que tinha dias de não conseguir sair da cama, que tinha perdido a vontade de coisas que gostava, que chorava à tarde sem motivo. Emendou com um "mas isso é falta de foco, né?". Falei que não.

Falei que coaching trabalha com meta, estrutura, ação. Nada disso faz sentido quando a pessoa não tem energia nem pra atravessar o dia. Disse que não era o lugar, e que forçar seria cruel. Ela ficou quieta. Perguntou se eu estava dizendo que ela era doente. Respondi que não cabia a mim dizer o que ela era, mas cabia dizer o que eu não era. Aquele sofrimento pedia alguém com formação pra avaliar e tratar. Psicólogo, talvez psiquiatra. Coaching podia vir depois, se fizesse sentido. Primeiro era cuidado, não cronograma.

Ela saiu sem agradecer. Fiquei com aquela sensação estranha de ter perdido um cliente. Três semanas depois ela mandou mensagem. Tinha começado terapia, estava medicada, e disse que só entendeu o que eu falei quando começou a melhorar. Se eu tivesse aceitado o coaching, teria passado meses se cobrando por não conseguir executar um plano que o corpo dela não tinha como executar. Abrir mão do cliente às vezes é o trabalho. Não tem nada de bonito nisso, mas era o que a situação pedia.

O que o coaching faz bem, quando é o lugar certo

Feito o desconto de tudo o que ele não é, sobra um trabalho concreto. Transformar uma queixa vaga num objetivo que dá para perseguir. Recuperar a informação que a própria pessoa apagou ao contar o problema. Achar o que o comportamento atual está protegendo, porque comportamento que persiste está servindo a alguma coisa. Estruturar uma decisão e sustentar a execução dela nas semanas em que a motivação inicial já passou.

Nada disso é pouco. O que exige é alguém que saiba onde parar, e essa parte a nossa formação em coaching trata como conteúdo obrigatório, não como aviso de rodapé.

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