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Coaching e liderança

Metas que não se cumprem: o problema quase nunca é disciplina

Quem não cumpre a meta costuma culpar a força de vontade. Na maioria das vezes o defeito está antes disso, no jeito como o objetivo foi formulado.

Bruno SenaFundador do IBSDH

Todo janeiro a mesma cena se repete, e todo março ela já acabou. A explicação que a pessoa dá para si mesma é quase sempre a mesma: faltou disciplina. É uma explicação confortável. Cabe em qualquer caso e não pede que nada mude, só que da próxima vez se tente com mais força.

Ela raramente é verdade. Na maior parte das vezes o objetivo já vinha quebrado de origem, formulado de um jeito que nenhuma força de vontade daria conta de executar. Existem seis condições que separam uma intenção de um objetivo perseguível. Vale conferir a sua meta contra elas antes de concluir que o problema é você.

1. Está dito no positivo?

"Parar de procrastinar." "Não brigar mais com meu filho." "Sair da ansiedade." Todas dizem o que se quer evitar. Nenhuma diz o que se quer no lugar. O problema é prático: para não pensar numa coisa é preciso primeiro pensar nela. Objetivo negativo mantém a atenção grudada justamente onde ela não deveria estar.

A correção é uma pergunta. O que você quer no lugar disso? "Parar de procrastinar" vira "começar o relatório às nove da manhã, antes de abrir o e-mail". A segunda frase dá para executar amanhã. A primeira, não.

2. Depende de você?

"Quero que minha equipe seja mais engajada." "Quero que meu marido me valorize." Desejos legítimos e objetivos impossíveis, porque a ação que realizaria cada um deles pertence a outra pessoa. Objetivo que depende de terceiros transforma quem o persegue em espectador do próprio plano.

A pergunta que conserta: o que está na sua mão? Ninguém decide o engajamento de outra pessoa. Dá para decidir mudar a forma como se dá retorno, com que frequência, e o que se pede em troca. O resultado continua sem garantia, mas a ação volta a ser sua.

3. Dá para saber que chegou?

"Ser mais confiante" não tem linha de chegada. Sem evidência sensorial, ou seja, o que você vai ver, ouvir e fazer de diferente, o objetivo vira sensação. E sensação não se verifica. O resultado é que a pessoa nunca sente que chegou, mesmo tendo avançado bastante.

A pergunta é concreta: como você vai saber? "Ser mais confiante" vira "falar na reunião de segunda sem ensaiar a frase antes e sem ficar checando a cara das pessoas enquanto falo". Isso acontece ou não acontece.

4. Onde, quando, com quem, e onde não

Objetivo sem contexto vira regra geral, e regra geral cobra o tempo todo. "Ser mais assertivo" aplicado a tudo produz alguém desagradável no jantar de domingo. O contorno faz parte do objetivo: em que situações isso vale, e em quais deliberadamente não vale.

5. O que o comportamento atual está protegendo

Essa é a condição que quase nunca é ensinada, e a que derruba a maioria das metas bem escritas. Um comportamento que persiste há anos, contra a vontade declarada da pessoa, está entregando alguma coisa. Não por fraqueza. Porque funciona para algum fim.

  • A procrastinação protege de descobrir que o trabalho, feito com tempo, ainda assim não seria bom o bastante.
  • A agenda lotada protege de uma conversa em casa que ninguém quer ter.
  • O peso protege de um tipo de atenção que já foi invasiva antes.

Enquanto a proteção não for reconhecida e trocada por outra coisa, o plano perfeito vai ser sabotado por dentro, e a pessoa vai chamar isso de falta de disciplina outra vez. A pergunta que abre o assunto é desconfortável e vale a sessão inteira: o que você perderia se conseguisse?

6. O preço está declarado?

Todo objetivo custa. Tempo, dinheiro, energia, e quase sempre alguma coisa que já estava ali. Quem escreve a meta sem escrever o preço faz um acordo com uma versão de si que ainda não sabe o que vai ser cobrado. E essa versão não é a que vai pagar, às seis da manhã de uma terça de julho.

O livro que ficou sete anos inacabado

Ela queria escrever um livro há sete anos. Chegou dizendo que era preguiça, falta de disciplina. Começava e largava. Tinha cinco projetos abertos e nenhum terminado. Já tinha tentado planner, curso de escrita, grupo de cobrança mútua. Tudo. Perguntei o que ela perderia se terminasse o livro. Ela riu de nervoso e disse que aquilo era pergunta de terapeuta. Falei que era pergunta de meta mesmo. Ela ficou pensando. Aí a conversa mudou de tom.

Disse devagar que, enquanto o livro estava inacabado, ele ainda podia ser genial. Terminado, viraria um livro qualquer. Julgável. Comparável. Talvez medíocre. Enquanto não terminasse, ela continuava sendo a pessoa que vai escrever um livro um dia. A meta não estava sendo sabotada por falta de disciplina. Estava sendo protegida por ela. O comportamento de não terminar defendia uma identidade. Protegia do veredito, da possibilidade de ser uma escritora comum em vez de uma promessa eterna. A preguiça que ela jurava ser o problema era o guarda-costas do sonho.

Depois que isso ficou claro, o trabalho mudou de endereço. Já não passava por método. Passava por outra coisa: o que ela estava disposta a perder pra ganhar. Levou um tempo, teve recaídas, mas terminou um livro pequeno, independente, sem editora, meio torto. Disse que foi a coisa mais assustadora que já fez. Não era genial. Era dela. A partir dali começou a escrever de verdade, porque o fantasma tinha sido enterrado.

O teste rápido, antes de tentar de novo

Pegue a meta que você não cumpriu no ano passado e passe as seis perguntas nela. Está no positivo, depende de você, dá para saber que chegou, tem contexto, você sabe o que o comportamento antigo protege, e o preço está declarado. É raro que uma meta abandonada passe nas seis. Também é raro que o problema tenha sido disciplina.

O objetivo bem formulado é a primeira ferramenta de qualquer processo de coaching sério, e é ensinado como conteúdo próprio, com prática. Ele aparece na engenharia emocional do PNL Practitioner e é a base do trabalho no Master Coach.

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